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A sarna demodécica é uma das doenças dermatológicas mais conhecidas na medicina veterinária e, apesar de ser popularmente chamada de "sarna negra", apresenta características bastante diferentes de outros tipos de sarna que acometem cães e gatos. Trata-se de uma enfermidade causada pela proliferação excessiva de ácaros do gênero Demodex, organismos microscópicos que vivem naturalmente na pele dos animais sem causar qualquer problema na maioria dos casos.
Nos cães, o principal agente envolvido é o Demodex canis, enquanto nos gatos os mais frequentemente encontrados são o Demodex cati e o Demodex gatoi. Esses ácaros fazem parte da microbiota cutânea normal e habitam os folículos pilosos e glândulas sebáceas. A doença surge quando ocorre um desequilíbrio que permite sua multiplicação descontrolada, provocando inflamação, lesões de pele e queda de pelos.
Embora a sarna demodécica seja frequentemente associada a filhotes, ela pode acometer animais de diferentes idades. O desenvolvimento da doença está intimamente relacionado a fatores genéticos e ao funcionamento do sistema imunológico. Por esse motivo, compreender suas causas, formas de transmissão, diagnóstico e tratamento é fundamental para garantir o controle adequado da enfermidade.
Por que alguns animais desenvolvem a doença?
Todos os cães e gatos possuem ácaros Demodex em pequenas quantidades na pele. Em animais saudáveis, esses organismos convivem naturalmente com o hospedeiro sem provocar sintomas. Entretanto, alguns indivíduos apresentam predisposição genética que favorece a proliferação excessiva dos ácaros.
Essa predisposição pode ser herdada tanto do pai quanto da mãe. Durante os primeiros dias de vida, especialmente durante a amamentação e o contato próximo com a mãe, os filhotes adquirem naturalmente esses ácaros. Contudo, apenas os animais geneticamente suscetíveis tendem a desenvolver a doença ao longo da vida.
Acredita-se que alterações na resposta imunológica permitam que os ácaros se multipliquem em quantidade muito superior ao normal, desencadeando as lesões dermatológicas características da sarna demodécica.
A sarna demodécica é contagiosa?
Uma das dúvidas mais frequentes dos tutores diz respeito ao risco de transmissão. Diferentemente de outros tipos de sarna, a sarna demodécica não é considerada uma zoonose, ou seja, não é transmitida para seres humanos.
O ácaro pode ser transferido entre animais, principalmente entre mãe e filhotes durante os primeiros contatos de vida. Entretanto, a simples presença do ácaro não significa que a doença irá se desenvolver. Para que isso aconteça, é necessário que o animal possua predisposição genética associada a fatores que favoreçam o desequilíbrio imunológico.
Por esse motivo, embora o ácaro possa ser compartilhado entre animais, a doença em si não é considerada contagiosa da mesma forma que outras sarnas causadas por diferentes espécies de ácaros.
Quais são os sinais clínicos da sarna demodécica?
Os sintomas podem variar conforme a extensão e a gravidade do quadro. Em alguns animais, as lesões permanecem localizadas em pequenas áreas do corpo. Em outros, a doença pode evoluir para formas generalizadas, atingindo extensas regiões da pele.
Os sinais mais frequentemente observados incluem:
- Queda de pelos localizada ou generalizada;
- Vermelhidão da pele;
- Descamação;
- Formação de crostas;
- Escurecimento da pele;
- Pele espessada;
- Presença de feridas;
- Alterações na qualidade da pelagem.
Uma característica importante da sarna demodécica é que, em muitos casos, as lesões não provocam coceira intensa inicialmente. Quando o animal apresenta prurido significativo, frequentemente existe uma infecção bacteriana ou fúngica secundária associada ao quadro.
Em situações mais avançadas, podem surgir áreas com secreção, pus, sangramento e odor desagradável, indicando complicações que exigem tratamento imediato.
Existem raças mais predispostas?
Sim. Embora qualquer cão possa desenvolver a doença, algumas raças apresentam incidência significativamente maior devido à predisposição genética.
Entre as raças frequentemente associadas à sarna demodécica estão Bulldog Inglês, Bulldog Francês, Pug, Boxer, Rottweiler, Pastor Alemão, Shar-Pei, Beagle, Cocker Spaniel, Dachshund, Doberman, Boston Terrier, Chihuahua, Lhasa Apso e Collie, entre outras.
Essa predisposição não significa que todos os indivíduos dessas raças desenvolverão a doença, mas indica um risco maior quando comparado à população canina em geral.
Como é realizado o diagnóstico?
O diagnóstico da sarna demodécica deve ser realizado por um médico-veterinário por meio de avaliação clínica e exames específicos. Como diversas doenças dermatológicas apresentam sintomas semelhantes, o diagnóstico correto é fundamental para evitar tratamentos inadequados.
O exame mais utilizado é o raspado cutâneo, uma técnica relativamente simples e rápida que permite identificar a presença dos ácaros diretamente ao microscópio. Dependendo do caso, outros exames complementares podem ser solicitados para avaliar infecções secundárias ou investigar doenças associadas.
Quando realizado por um profissional experiente, o diagnóstico costuma ser preciso e permite a definição do tratamento mais adequado para cada paciente.
Quais fatores podem agravar a doença?
Diversas condições podem favorecer a multiplicação dos ácaros e dificultar o controle da enfermidade. De maneira geral, qualquer situação capaz de comprometer o sistema imunológico pode contribuir para o agravamento do quadro.
Entre os fatores mais importantes estão o estresse físico ou emocional, má nutrição, parasitoses, doenças hormonais, obesidade, neoplasias, tratamentos quimioterápicos, uso prolongado de medicamentos imunossupressores, gestação, parto e outras enfermidades crônicas.
Por essa razão, a investigação de doenças concomitantes faz parte do manejo adequado dos pacientes com sarna demodécica, especialmente nos casos que surgem em animais adultos.
A sarna demodécica tem cura?
A sarna demodécica apresenta excelente prognóstico quando diagnosticada precocemente e tratada corretamente. Muitos pacientes alcançam remissão completa das lesões e podem viver normalmente por longos períodos.
No entanto, devido ao componente genético e imunológico da doença, alguns animais podem apresentar recaídas ao longo da vida, principalmente durante períodos de estresse ou queda da imunidade. Nesses casos, novas intervenções terapêuticas podem ser necessárias para restabelecer o controle da enfermidade.
Por esse motivo, o acompanhamento veterinário periódico é fundamental mesmo após a melhora clínica.
Quais tratamentos estão disponíveis?
Os avanços da medicina veterinária proporcionaram tratamentos cada vez mais seguros e eficazes para a sarna demodécica. Atualmente existem diversas opções terapêuticas capazes de controlar a proliferação dos ácaros e promover a recuperação da pele.
O protocolo pode incluir medicamentos orais, produtos tópicos, terapias injetáveis, shampoos dermatológicos específicos e tratamento das infecções secundárias quando presentes. A escolha da abordagem depende da idade do paciente, da extensão das lesões, da presença de doenças associadas e da resposta individual ao tratamento.
A automedicação nunca é recomendada, pois alguns produtos podem causar efeitos adversos graves ou mascarar sintomas importantes. Além disso, o uso inadequado de medicamentos pode atrasar o diagnóstico correto e comprometer os resultados terapêuticos.
Com diagnóstico preciso, tratamento adequado e acompanhamento especializado, a grande maioria dos cães e gatos acometidos pela sarna demodécica consegue recuperar a saúde da pele e manter uma excelente qualidade de vida. O controle da doença depende de uma abordagem individualizada, baseada nas características específicas de cada paciente e no acompanhamento contínuo de sua evolução clínica.



